A tragédia da sociedade
A tragédia da morte acaba sempre por se transformar em notícia empolgante.
Traçam-se perfis obscuros, por que são os mais rentáveis, insiste-se em não aprofundar as causas, não apenas por laxismo, mas porque tal conhecimento não vende.
Duas crianças perderam a vida num incêndio na sua própria casa, quando se encontravam sozinhas.
As notícias procuram apontar responsáveis, não se coíbem de procurar responsabilizar o estado, julgam o “desleixo” dos progenitores.
Afinal o que está em causa é o esconder das responsabilidades da própria sociedade que nos tem vindo a transformar em monstros egocêntricos, onde apenas tem cabimento o nosso bem-(mal) estar, isolados do resto da sociedade.
Sou do tempo em que os vizinhos eram vizinhos, em que não se procurava esconder a miséria nem a riqueza, em que se comungavam preocupações, em que se partilhava o sal ou o açúcar, o tempo em que os filhos dos nossos vizinhos eram nossos vizinhos e nos preocupávamo-nos com a segurança deles tal qual com as dos nossos.
Havia uma partilha cúmplice de responsabilidades, todos pobres mas todos responsáveis pela sobrevivência de cada um.
Nos dias que correm, vivemos isolados do mundo exterior às noticias das TVs, vivemos para trabalhar, para gastar e voltar a trabalhar, refugiamo-nos no nosso espaço, encerrando à nossa volta as misérias que a sociedade dita moderna nos impõe e conseguimos conviver sem revolta com o ostracismo que nos vem tornando em seres inumanos de solidariedade.
As causas daquela tragédia acabarão por ser descortinadas, alguém vai acabar por ser punido, mas os verdadeiros culpados continuarão impunes.