Reconhecimento

Porque vieste em Abril
e nada pediste.

O meu reconhecimento...

Porque vieste em Abril
e nada pediste.

O meu reconhecimento...
Não me cansarei jamais, de evocar o quão importante foi para a sociedade Portuguesa o levantamento militar de 25 de Abril de 1974.
Podemos com muita razão estar deprimidos, face à esperança “colocada muito alto e” que tarda em realizar-se.
O acumular de erros, mesmo assim, não torna inútil o sacrifício de uns tantos, nem sequer o sangue derramado naquele dia por um punhado de jovens ávidos de justiça.

É bem verdade, que a 25 de Abril de 1974 já o poder havia caído, com a guarda de Marcelo Caetano pelas tropas de Salgueiro Maia, ali no Largo do Carmo. Mas eu senti nesse dia, nessa hora, que a liberdade tão ansiada e tão proclamada não estava presente, pese embora as lágrimas e os gritos de alegria que brotavam dos olhos e gargantas do cidadão anónimo.
O último bastião do regime opressor, a muleta que lhe servia de suporte tardava a cair.
Foi necessário que um grupo de Portugueses e Portuguesas tomasse de assalto a R. António Maria Cardoso, que muitos deles caíssem vítimas da besta fascista, para que por fim, as tropas do MFA tomassem conta do edifício sede da sinistra DGS.
Então sim, pude encarar ainda que com alguma dor fisica, a realidade que tinha ante os olhos.
A ditadura havia tombado para sempre.
à quarenta anos.
Nada fiz ou proclamei que pudesse ferir os sentimentos “puritanos” da classe dominante.
Simplesmente o paisano embirrou com a minha cara.
Estava calmamente, “parado”, com mais dois camaradas de trabalho, ali na praça do Chile, bem junto de dois engraxadores onde os dois camaradas limpavam os sapatos.
Embirrando com um dos engraxadores, o paisano pretenderia levar o homem para a esquadra de Arroios, ante a sua recusa, acabei por ser eu o alvo dos “vapores” do referido paisano.
Ante ameaças veladas e sugestões para que fugisse, (vê lá se foges dou-te um tiro) chegámos por fim à esquadra de Arroios.
Entre acusações de “tedy boy” e de malandro, lá fui sendo empurrado para o interior da dita.
Tive sorte, não violaram a minha integridade física.
Duas horas depois estava cá fora, o sujeito que parecia mandar ali, veio ter comigo com uma cara de “pau”, muito chateado e mandou-me embora.
Olhando-o nos olhos, acabei por lhe perguntar:
-E agora?
Ao que o tal sujeito que parecia mandar ali, retorquiu:
-Agora! Vai-te embora antes que me arrependa…
Hoje ao escutar certas noticias, dei comigo a recordar os tempos idos, numa célebre manifestação na baixa Lisboeta, contra o regime.
À irreverência da juventude nunca faltou imaginação, recordo que contra os canídeos da polícia, eram utilizados inocentes gatinhos, previamente ensacados, para na hora, serem libertos e tentar assim distrair os cães da polícia de choque.
Contra os canhões de água Azul, que dificilmente sairia das roupas atingidas, ao mesmo tempo que serviria para identificar e aprisionar todos quantos a exibissem, eram as pedras da calçada Lisboeta que serviam de arma de arremesso.
Difícil mesmo, era escapar das bestas da GNR, dos seus cavalos e dos seus sabres afiados, nem sempre bem manejados, o que ocasionalmente provocava feridas difíceis de sarar.
É verdade, que aqueles que eram despertos ainda antes do galo cantar e arrastados para as masmorras da PIDE, têm muito mais para contar, apenas calam a vergonha de haverem “oferecido a outra face”, num dado dia de Abril.
Não caí da cadeira.
Isso foi o outro.
Que a sua “alma” descanse no inferno, pese embora as tentativas de "ressurreição" que por aí vão tentando.
É bom que a história não seja apagada das nossas memórias, que dela nos não envergonhemos (apesar do que muito sofremos) e que a saibamos transmitir aos mais novos.
Hoje, aos idosos sempre abandonados, cabe um nico da solidariedade social, na forma de uma reles pensão de menos de 200 euros.
Naquele tempo, até uma côdea de pão tinham de mendigar.
23 De Abril de 1974, uma data a não esquecer, para que o seu retorno seja impossível.